15 de abril de 2016

BOLETIM DIÁRIO DA CNBB - 15/04/2016

Presidente da CNBB conclama a todos para promoção da paz

 

Dom Sergio da Rocha presidiu missa de encerramento da 54ª Assembleia Geral da CNBB, que teve início no dia 6 de abril, em Aparecida (SP)

“Neste momento de crise que vivemos no pais, conclamamos a todos, mais uma vez, para promover a paz, rejeitando qualquer forma de agressividade ou violência nas suas manifestações”, afirmou o arcebispo de Brasília (DF) e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Sergio da Rocha, durante homilia, na missa de encerramento da 54ª Assembleia Geral da entidade. A missa, na manhã desta sexta-feira, 15, reuniu os bispos de todo o Brasil, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP). Partindo do objetivo geral das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2015-2019), dom Sergio fez sua reflexão da liturgia de hoje, que apresenta a conversão de São Paulo, destacando que “somos chamados a ser Igreja discípula, missionária, misericordiosa e profética”.

 

Igreja discípula

 

“Nós somos e queremos ser, cada vez mais, uma Igreja de discípulos que vivem do encontro com o ressuscitado e que se alimentam da sua palavra e da eucaristia”, afirmou dom Sergio. Para ele, “nos tornamos discípulos pela graça de Deus, porque a inciativa é sua”. Para trilhar o caminho do discipulado, há o chamado a permanecer em Cristo, “comendo da sua carne, bebendo do seu sangue, alimentando-nos do pão descido do céu, conforme o evangelho que ouvimos”, sublinhou.

 

Misericordiosa

 

“Os olhos de Saulo se abriram com a ajuda da Igreja, representada por Ananias. Uma Igreja mãe misericordiosa e acolhedora, casa de portas abertas capaz de acolher tantos caídos por terra como Saulo, incapazes de ver, de caminhar, necessitados de mãos estendidas, de coração aberto para levantar-se das quedas, para caminha na luz”, disse dom Sergio sobre a proposta da misericórdia. A manifestação desse elemento também acontece no compartilhamento da “luz da palavra, que oferece a graça de recuperar a vista quando o olhar da fé começa a se enfraquecer”. “Uma Igreja que é exemplo do bom samaritano se faz servidora dos que mais sofrem”, apontou.

 

Missionária

 

A Igreja missionária, “em saída”, de acordo com dom Sergio, compartilha “a experiência do encontro com Cristo, a alegria do evangelho, a alegria do amor na família”, destacou o arcebispo lembrando as exortações apostólicas do Papa Francisco. “Por isso, como fez Ananias, possamos dizer a cada dia ‘aqui estou, Senhor’, como Paulo, possamos sair e ir ao encontro de todos”, desejou. O mandato missionário de Jesus, segundo o presidente da celebração, continua a ecoar na Igreja hoje. “É preciso sair ao encontro daqueles que no mundo de hoje vivem como Saulo, necessitados da luz da fé e do encontro com Cristo. Necessitamos sair ao encontro das ovelhas mais sofridas e errantes do rebanho de Cristo”, ressaltou.

 

Profética

 

O profetismo da Igreja se dá, de acordo com dom Sergio da Rocha, na atenção aos problemas sociais, “oferecendo a sua contribuição própria, à luz da fé em Cristo, os valores e critérios que brotam do Evangelho para orientar a vida política, econômica e cultural”. Nesse sentido, o presidente da CNBB destacou que os pronunciamentos da Conferência Episcopal não se inspiram em ideologias políticas, “mas na palavra de Deus e no magistério da Igreja”.  “Neste momento de crise que vivemos no pais, conclamamos a todos, mais uma vez, para promover a paz, rejeitando qualquer forma de agressividade ou violência nas suas manifestações”, convidou.  “O caminho a ser percorrido, é o caminho do diálogo que constrói, ao invés da polêmica ofensiva. É o caminho da escuta dos que não podem gritar, no lugar do grito que agride. É o caminho do debate respeitoso e não dos embates que transformam em inimigos os que pensam diferente. Com violência, não se constrói uma nova sociedade, nem se alcança justiça social. Ao contrário, a violência fere a dignidade das pessoas e destrói o nosso povo e a nossa casa comum”, apontou.

 

Ação de Graças 

 

Em sua homilia, dom Sergio também expressou o sinal de ação de graças pela 54ª Assembleia Geral da CNBB, pela própria Conferência, pelos bispos, pela Igreja no Brasil, pelos estudos e pronunciamentos que aconteceram nos dez dias do encontro e pelo “valioso” documento aprovadosobre os Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade, “chamados a ser sal da terra e luz do mundo”. O presidente da CNBB também louvou a Deus pelo Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Dom Sergio encerrou bendizendo a Deus “pelo caminho percorrido até aqui”, mas considerou ter “longo caminho a percorrer para responder fielmente ao mandato missionário de Jesus Cristo”. “Alimentados pela sua palavra e pela eucaristia, na força do Espírito Santo, esperamos crescer com todos, especialmente com os cristãos leigos e leigas, cuja presença e missão queremos valorizar e promover sempre mais”, disse. A missa foi concelebrada pelo arcebispo de Salvador (BA) e vice-presidente da CNBB, dom Murilo Krieger, e pelo bispo auxiliar de Brasília e secretário geral da entidade, dom Leonardo Ulrich Steiner.   Na procissão de entrada, estiveram os bispos do Conselho Permanente da CNBB, que envolve a Presidência da entidade, os presidentes das 12 Comissões Episcopais Pastorais e dos Regionais da Conferência. 

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Assembleia Geral da CNBB 2016

 

Dom Pedro Luiz StringhiniBispo de Mogi das Cruzes (SP)

 

1. O CATOLICISMO NO BRASIL , MUDANÇA DE RELIGIÃO NO BRASIL


O tema foi apresentado pela Dra. Sílvia Fernandes, do CERIS. Fez menção ao livro das Vozes Religiões em Movimento: o Censo de 2010. Há um cenário de mudanças no contexto sócio religioso brasileiro e uma diminuição do percentual de católicos no Brasil. Os católicos somam 64% da população brasileira e o que se constata é que há um pluralismo cristão; há evangélicos, não determinados e evangélicos não vinculados. Os ‘sem religião’ somam 8,9% em 2010. E desses, só 0,5% declaram que não acreditam em Deus, ou seja, muitas vezes quando dizem que não têm religião estão dizendo que não frequentam igreja. A mobilidade (mudança de igreja) ocorre mais entre a idade de 20 a 50 anos. Resumindo os dados: em 1980, os católicos somam 89%; em 1991, 83,3%; em 2000, 73,9% e, em 2010, 64,5%. Há uma interpretação a partir do indivíduo: desinstitucionalização, experimentação, reconfiguração da pertença (tradição e emoção); e uma a partir da instituição: foco pastoral e eficácia, missão e método, periferias, etc.

 

2. CRISTÃOS LEIGOS E LEIGAS NA IGREJA E NA SOCIEDADE

Este foi o tema central da Assembleia. E o lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo” (Mt 5,13-14). Sobre o assunto, a CNBB já elaborou os documentos de estudos 107 e 107 A. Os bispos se dirigem aos cristãos leigos e leigas “agradecidos pelo testemunho de sua fé, pelo amor e dedicação à Igreja e pelo entusiasmo com que se doam ao povo e às comunidades, até ao sacrifício de si, de suas famílias e de suas atividades profissionais” (n. 1). O documento vem marcado pela ideia de que “cada cristão leigo é chamado a ser um sujeito eclesial para atuar na igreja e no mundo” (n. 1). Por vocação, os leigos são “corresponsáveis pela nova evangelização” (n. 2). A reflexão segue inspirada pelas “conclusões do Concílio Ecumênico Vaticano II, a atualidade da Conferência de Aparecida e a eclesiologia missionária e renovadora do Papa Francisco” (n. 2). Também “a realidade eclesial, pastoral e social dos tempos atuais torna-se um forte apelo” à reflexão sobre o tema do laicato (n. 3). Citando a Lumen Gentium (n. 31), afirma-se que “a vocação própria dos leigos é administrar e ordenar as coisas temporais, em busca do Reino de Deus. São chamados por Deus a serem fermento de santificação no seio do mundo” (n. 5). São interpelados a agirem no “vasto e complicado mundo da política, da realidade social, da economia, da cultura, das ciências e das artes” (n.6, citando EN n.70). Participar na ação pastoral da Igreja nasce do Batismo e da Crisma (cf. EG, n. 102) e tem a ver com a identidade, vocação, espiritualidade e missão dos leigos na Igreja e no mundo. Ou seja, há que se responder: Quem é o leigo? A que é chamado e quem é que chama? O que lhe dá sentido? O que realiza? O documento segue o método ver-julgar-agir, isto é, ver “os rostos do laicato”, julgar “em perspectiva eclesiológica, considerando a diversidade de carismas e ministérios na Igreja” e agir, tratando da “ação transformadora dos cristãos leigos na Igreja e no mundo” (n. 12).

3. PENSANDO O BRASIL: CRISES E SUPERAÇÕES


Esta reflexão corresponde à terceira edição do que já foi publicado na coleção pensando o Brasil - 2016. A análise delimita aborda quatro aspectos: cultural, econômico, social, político. E os aborda em três partes: percepções da realidade (ver), reflexões à luz da doutrina social da Igreja (julgar) e indicações para superar as crises. Na introdução, afirma que a Constituição de 1988 reconhece Direitos Sociais em vista dos quais há que se superar “interesses particulares no campo econômico”. Menciona também a existência de medidas legislativas “de caráter restritivo às franquias democráticas”. O país deveria passar da crise política à reforma política.

4. DECLARAÇÃO SOBRE O MOMENTO POLÍTICO NACIONAL


Dessa declaração depreendem-se algumas necessidades: a de se combater a corrupção, que é intrínseca e historicamente solidificada e entranhada no país; a necessidade de se preservar as instituições (executivo, legislativo, judiciário, ministério público) e o estado democrático de direito, conquistado a duras penas; a necessidade de se preservar as conquistas e avanços sociais, cujas políticas públicas, nas últimas décadas, retiraram quarenta milhões de brasileiros da extrema pobreza; a necessidade de uma ampla e profunda reforma política, que modifique a estrutura viciada da nossa democracia, a começar pelo sistema eleitoral. A essa reforma deveriam seguir outras, como a tributária, que penaliza os pobres e privilegia os mais ricos.

5. MENSAGEM PARA AS ELEIÇÕES 2016


A mensagem convoca os católicos à participação cidadã, para que se possa sonhar “com um país próspero, democrático, sem corrupção, socialmente igualitário, economicamente justo, ecologicamente sustentável, sem violência nem discriminação, sem mentiras e com oportunidades iguais para todos”. As eleições municipais, em que se elegem prefeitos e vereadores despertam interesse nos eleitores, visto serem os candidatos mais conhecidos, daí ser o pleito propícia ocasião para um sadio exercício cívico de participação. A conduta ética é evocada como indispensável requisito a ser exigido dos que se apresentam para serem representantes do povo. “A Lei da Ficha Limpa há de ser, neste caso, o instrumento iluminador do eleitor para barrar candidatos de ficha suja”. Requer-se dos candidatos, especialmente se se apresentar como católico, compromisso com a defesa “da vida, com a ética, com a transparência, com o fim da corrupção”. É salutar também “a renovação de candidaturas pondo fim ao carreirismo político”. Enfim, sejam “as eleições municipais ocasião de fortalecimento da democracia”.

6. AMORIS LAETITIA, A ALEGRIA DO AMOR


A Exortação Apostólica Pós-Sinodal do Papa Francisco denomina-se Amoris Laetitia, com o subtítulo sobre o Amor na Família. Foi editada pelas Edições CNBB, na coleção Documentos Pontifícios 24 (2016). É dirigida aos bispos, aos presbíteros e aos diáconos, às pessoas consagradas, aos esposos cristãos e a todos os fiéis leigos. Possui nove capítulos, que, em resumo trata dos temas: a Palavra de Deus que ilumina, a realidade e os desafios das famílias, a vocação família (a partir de Jesus), o amor no matrimônio (a partir de 1Cor 13), o amor que se torna fecundo (nos membros da família), algumas perspectivas pastorais, a educação dos filhos, a fragilidade (situações “irregulares”), espiritualidade conjugal e familiar. Destacam-se alguns enfoques da exortação papal:


1. Mais que o critério jurídico, considera-se a pessoa; isto é, mais que a moral dos princípios (normas gerais), privilegia a moral da situação, com enfoque na misericórdia. Além do que, o Papa dá ênfase à dimensão positiva, da alegria, da beleza da família, que não deve ser vista como problema mas como oportunidade;

2. O Papa fala de situações de fragilidade mais que situações irregulares ou situações de pecado, ou seja, leva em consideração aspectos psicológicos, os sentimentos;

3. Aposta-se no trabalho preventivo, educativo (educação para o amor, o sentido da vida e da sexualidade) e na formação das consciências.

4.
 No sentido pastoral e evangelizador, há que se promover o acompanhamento aos jovens, a preparação dos noivos para o matrimônio, a pastoral familiar para os casados;


5. Necessidade dos pastores a dedicarem-se ao acompanhamento atencioso às pessoas, casais, famílias, que passam por problemas. Cuidar dos feridos (hospital de campanha) e dos sadios para que não se firam;

6. Muito importante é o que o Papa chama de recurso à gradualidade quando se trata de abordar as situações de fragilidade, isto é, não se deve tomar como ponto de partida o ideal (as exigências objetivas da lei), mas a situação real de tantas pessoas que podem estar no início de um caminho de superação de dificuldades para depois se dar passos e um dia atingir a situação ideal.

7.  RETIRO ESPIRITUAL, SOBRE A MISERICÓRDIA


O cardeal Gianfranco Ravasi apresentou quatro meditações: Três ícones da Misericórdia, O caminho da misericórdia, A casa da misericórdia, O ventre da misericórdia. Os três ícones ideais são: de Deus, do seu Cristo e do fiel. O ponto de partida é a fé bíblica de que nosso Deus é um Deus misericordioso. E que a misericórdia não anula a justiça; antes, a aperfeiçoa. E a justiça com misericórdia encontra seu ponto de equilíbrio. E que “a onipotência de Deus não é princípio prevaricação, mas de misericórdia. Exatamente porque tudo pode, Deus tem compaixão de todos”. Reflete sobre textos emblemáticos referentes ao que foi afirmado: Ex 34,6-7, o livro da Sabedoria (9,1; 12,18-19). Paulo afirma que “Deus, que é rico em misericórdia, pelo amor imenso com que nos amou, precisamente a nós que estávamos mortos pelas nossas faltas, deu-nos a vida com Cristo. É por graça que fostes salvos” (Ef 2,4-5). Por fim, teceu considerações sobre o que se espera da Igreja: 1. uma Igreja submetida e nutrida pela Palavra de Deus; 2. uma Igreja que tenha como centro a Eucaristia; 3. uma Igreja da misericórdia, da caridade, da justiça; 4. uma Igreja que fala mais pelo testemunho operoso que pelos documentos; 5. uma Igreja consciente da necessidade da distinção entre Fé e Política (dai a César o que é de César ...) e ao mesmo tempo marca presença na Sociedade; 6. uma Igreja que não teme a cultura e as culturas (diálogo entre fé e ciência); 7. uma Igreja do Espírito Santo e do discernimento, atenta aos sinais dos tempos, menos engessada, mais livre e mais festiva.

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Sem fronteiras

 

Dom José Alberto MouraArcebispo de Montes Claros (MG) 

O número dos discípulos de Jesus crescia assustadoramente após a pregação dos Apóstolos. Por isso os chefes dos judeus tiveram inveja e se opunham aos mesmos Apóstolos e ao ensinamento sobre o Mestre ressuscitado (Cf. Atos 13,45). Mesmo perseguidos e até presos, os escolhidos do Senhor eram destemidos e continuavam sua missão de anúncio do Evangelho além dos judeus, indo ensinar aos pagãos ou gentios. Era uma pregação sem fronteiras, pois, Jesus não veio só para seus concidadãos. Veio para salvar a humanidade. Quem se salva é quem, recebendo o Evangelho, se converte e O segue. Com a confusão religiosa por tantas propostas diferentes, e até, às vezes, semelhantes, muitos ficam confusos, perguntando a quem e a que devem seguir. Mesmo em pessoas religiosas há defeitos e erros. De fato, a conversão é um ato contínuo de toda pessoa que aceita rever-se para tentar acertar melhor com o seguimento a Jesus e à sua proposta de amor. Ninguém está imune a erros e pecados. Não podemos confundir o ensinamento de Jesus com a prática de muitos seguidores. A Igreja é santa e pecadora ao mesmo tempo. É santa pela presença de Deus. É pecadora pela realidade do ser humano que procura segui-Lo e nem sempre consegue acertar bem em tudo. A Igreja é necessária para oferecer subsídios deixados nela por Jesus para nos ajudar: suja Palavra, oração, penitência, ensinamento dos Apóstolos, sacramentos, fraternidade... Mas a Igreja é meio e não finalidade. No bom uso do meio temos grande força e propulsão para a missão, que é levar Jesus e seus ensinamentos para que todos tenham vida. A evangelização não é imposição de cultura e de valores. É proposta de amor para ajudar a humanidade a encontrar o equilíbrio do amor e da justiça para todos terem vida plena já na caminhada desta história. Faz com que o planeta seja cuidado e tudo o que nele existe, a partir do ser humano.  Paulo e Barnabé lembram a missão da Igreja: “Eu te coloquei como luz para as nações, para que leves a salvação até os confins da terra” ( Atos 13,47). De fato, ser luz é dar condição a todos de enxergar o porquê da vida e como fazer para atingir sua finalidade, levando a todos a vida digna, sendo tratados como irmãos e filhos de Deus. A união de todos para cuidarem do planeta, promovendo a vida digna para cada um é essencial. Ninguém pode se eximir de colaborar para a implantação da justiça, em que todo ser criado por Deus seja tratado com seus direitos e deveres, a ponto de ter o necessário para viver como ser importante aos olhos de Deus e de cada ser humano. A evangelização, com o ensino da verdade e do bem é para todos. Jesus lembra que Ele veio para que todos tenham vida plena. O Evangelho é para a promoção dessa vida. Não é confinado a um grupo religioso. Por isso, ninguém pode barrar o anúncio do mesmo em bem de todos.

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Educar pela vida familiar

 

Dom Walmor Oliveira de AzevedoArcebispo de Belo Horizonte 

O Papa Francisco, atento às dinâmicas da cultura contemporânea e após a realização de dois sínodos, traz pertinente interpelação com a Exortação Apostólica sobre o amor na família, Amoris Laetitia.  Com sua extraordinária sensibilidade humana e a partir da escuta do mundo católico, Francisco mostra que a grande meta é reavivar a consciência sobre a importância do matrimônio e da família. Desafio complexo que não permite tratamento superficial. São necessárias ações bem fundamentadas para não se correr o risco de obscurecer ou anular o determinante e indispensável papel da família - lugar da educação por excelência - particularmente essencial neste momento, quando se precisa configurar novo tecido cultural. E isso é imprescindível para a superação das crises muito desafiadoras, nos âmbitos da ética, política, economia e instituições.  A Igreja, na unidade de doutrina e práxis, acolhe a indicação de que, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais atentas às tradições e aos desafios locais. Longe de qualquer tipo de permissividade, o caminho é se debruçar sobre culturas diferentes, considerando a pluralidade que caracteriza cada sociedade. Essa tarefa exige acuidade, empenhos e profunda espiritualidade. Por isso, o Papa Francisco recoloca, com destaque, alguns caminhos pastorais que levam à construção de famílias sólidas, fecundas segundo o plano de Deus, com especial luz sobre a educação dos filhos.  Não há mais tempo a perder diante da necessidade de se investir na família, referência singular com propriedades para edificar nova cultura humanística e espiritual que permita superar o atual momento social e político. Há uma complexidade própria na realidade da família, que precisa ser adequadamente compreendida e tratada.  Para isso, as jaulas do egoísmo e da mesquinhez devem ser evitadas. Essas prisões nascem de individualismos perversos e da consequente perda de capacidade para gestos altruístas, indispensáveis na vida de todos, especialmente no exercício da cidadania. Em questão, portanto, está o desafio de se compreender, em profundidade, a importância da família.  O desvirtuamento dos laços familiares é um real perigo alimentado por uma exasperada cultura individualista que pode parecer atraente, mas é caminho para prejuízos irreversíveis. É preciso conhecer mais profundamente a realidade familiar para não se negociar o inegociável. A liberdade de escolha, sublinha o Papa Francisco, permite a cada pessoa projetar a própria vida e cultivar o melhor de si mesmo, mas se não houver objetivos nobres e disciplina, se degenera numa incapacidade para a doação. O entendimento de que a liberdade individual garante o direito de julgar a partir de parâmetros próprios, como se não houvesse verdades, valores e princípios diferentes, é problemático. Cria a convicção de que tudo, desde que atenda ao interesse particular, é permitido.  Contribui para que entendimentos sobre o matrimônio sejam achatados por conveniências e caprichos.  Há um percurso longo para resgatar valores que foram perdidos. Sem essas referências, continuarão a surgir descompassos e a humanidade sofrerá com a perda de rumos. A trajetória a ser seguida exige entendimentos, recomposições e a necessária capacitação para a vivência de valores éticos e morais.  E a família é, indiscutivelmente, a primeira escola desses valores. Lugar em que se aprende o bom uso da liberdade. A Exortação Apostólica lembra que há inclinações maturadas na infância que impregnam o íntimo de uma pessoa e permanecem pelo resto da vida como tendência favorável a um valor ou como uma rejeição espontânea de certos comportamentos.  O aprendizado ético e moral no contexto educativo inigualável da família sustenta a vida, permeia atos e escolhas. Somente a instituição familiar tem propriedades para cumprir certas tarefas e metas na formação das pessoas, em razão de sua particular capacidade para alcançar e fecundar corações. De modo especial, é âmbito da socialização primária, em meio aos afetos mais profundos e tocantes, que possibilitam a aprendizagem da reciprocidade, do relacionar-se com o outro. Capacita para a escuta, a partilha, o respeito, a ajuda e a convivência.  A humanidade é convidada a compreender e a investir na força educativa da família, criando condições sociopolíticas, humanísticas e espirituais para que essa escola primeira seja qualificada e se mantenha como vetor para as grandes mudanças.

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O bom pastor e as famílias
 

Dom Alberto Taveira CorrêaArcebispo de Belém do Pará

O Papa Francisco ofereceu à Igreja a Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Amoris Lætitia” (A alegria do amor), sobre o amor na família, como fruto de duas Assembleias do Sínodo dos Bispos. Diz o Papa: “Apesar dos numerosos sinais de crise no matrimônio, o desejo de família permanece vivo nas jovens gerações. Como resposta a esta anseio, o anúncio cristão que diz respeito à família é deveras uma boa notícia”. Interpretações mundanas viram no documento papal uma possível decepção, enquanto todos nós, filhos da Igreja, descobrimos a projeção de um renovado sopro a favor da família. Quando muitos especulavam, quem sabe sonhando colocar na boca da Igreja soluções radicais para os problemas da família, independente dos extremismos correntes, o Santo Padre oferece um verdadeiro hino ao amor na família, a ser entoado pelo coro dos cristãos espalhados pelo mundo inteiro. Papa Francisco aconselha uma leitura calma da Exortação Apostólica, superando a tendência de uma compreensão apressada e superficial. Ele mesmo acena aos casais a beleza do capítulo a respeito do amor no matrimônio ou o texto sobre a fecundidade do amor. Os capítulos sobre as perspectivas pastorais e o reforço da Educação dos filhos certamente atrairão os agentes de Pastoral Familiar. Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade será a provocação positiva para todos os que buscam um caminho para evangelizar a boa nova da família diante das situações difíceis e desafiadoras de nosso tempo. E toda a Igreja celebrará as conclusões sobre a espiritualidade conjugal e familiar, com a qual se conclui a Exortação Apostólica. Não há dúvidas de que o Espírito Santo conduza a Igreja, o que se confirma mais uma vez, mostrando, diante de um mundo em crise e repleto de confusões em todos os níveis, que começa agora uma nova e esperançosa etapa de valorização da família, como foi pensada por Deus. Nas celebrações matrimoniais judaicas e cristãs, canta-se o salmo da família (Sl 127), com o qual o Papa iniciou a Exortação Apostólica e queremos ecoar com alegria: “Feliz quem teme o Senhor e segue seus caminhos. Viverás do trabalho de tuas mãos, viverás feliz e satisfeito. Tua esposa será como uma vinha fecunda no interior de tua casa; teus filhos, como brotos de oliveira ao redor de tua mesa. Assim será abençoado o homem que teme o Senhor. De Sião o Senhor te abençoe! Possas ver Jerusalém feliz todos os dias de tua vida. E vejas os filhos de teus filhos. Paz sobre Israel!” É festa para a Igreja quando pode oferecer as boas notícias. E elas estão dentro de nossas casas! Vivemos neste final de semana a Festa do Bom Pastor, na qual resplandecem as atitudes daquele que quer para todos a vida em abundância. Cabe bem ver as parábolas, chamadas no seu conjunto de Parábola do Bom Pastor (Cf. Jo 10, 1-30) dirigidas às famílias, acolhendo justamente o Evangelho da Família, dirigido a toda a sociedade, que clama, tantas vezes sem consciência clara, por tal novidade.  Com Jesus, que é a porta das ovelhas, queremos adentrar na casa e no coração de todas as famílias. “Cruzemos o limiar desta casa serena, com sua família sentada ao redor da mesa em dia de festa. No centro, encontramos o casal formado pelo pai e pela mãe com toda a sua história de amor” (Amoris lætitia 9). Nasça em nós um respeito profundo pela intimidade do lar, com seus segredos, conselhos, liberdade, afeto! Quem ninguém entre na família como o mercenário ou o salteador, mas seja ela reconhecida como espaço sagrado! É hora de ser radicais, impedindo que entrem em nossas casas os mercenários e ladrões, que roubam nada menos do que a nossa dignidade, para espalhar, na praça pública do mundo, a história e os valores, ainda em desenvolvimento, mas presentes em nossas famílias. A vida em abundância entra pela porta da casa quando a família acolhe Jesus. Ele é a porta e é aquele que vai à frente das ovelhas, sejam elas o pai, a mãe ou os filhos. O alimento verdadeiro, que sustenta as pessoas da família, tem um nome, que é o próprio Jesus, que é porta, sustento, pastor, aquele que conduz à boa pastagem (Cf. Jo 10, 9). Muito antes de nossas famílias existirem, o Senhor se entregou por elas e confirmou a bênção primordial da família. A força de suas palavras o revela: “Nunca lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher? Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne” (Gn 2, 24; Mt 19, 4; Cf. Amoris lætitia 9). O bom pastor conhece as ovelhas! Aqui ele se torna referência, mais uma vez, para a família. O lar é o lugar do conhecimento profundo. Quantos pais e mães até se assustam (bendito susto!) quando seus filhos se soltam quando estão em casa, parecendo até agressivos, como gente que trata bem só quem é de fora. É que em casa os defeitos e as qualidades são tocados com um amor que tudo cobre, tudo suporta e tudo perdoa! Em casa damos uns para os outros a vida, e não firulas ou enfeites, feitos muitas vezes de superficialidade. Benditas sejam as discussões, as lágrimas, e também os abraços, beijos, sorrisos e afetos de quem se sente em casa! E o pastor que é Jesus nos conhece, também porque garantiu estar presente entre aqueles que se reúnem em seu nome (Cf. Mt 18, 20), não só quando rezam, mas em todas as ocasiões. A família tem também sua dimensão missionária. Certamente muitos de nós temos a experiência de viver em famílias que agregam parentes e conhecidos, atraindo gente que apenas se sente bem naquela casa, reunindo amigos e conhecidos. As casas se tornam grandes, a ajuda a outras pessoas se multiplica, há um gosto especial em estar juntos! Desejamos que nossas famílias olhem para as outras, atraiam, para contribuírem de seu modo a fim de que venha a existir um só rebanho e um só pastor. O Papa Francisco põe em nossa boca uma belíssima oração, dirigida à Sagrada Família, que oferecemos agora a todas as famílias: “Jesus, Maria e José, em vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor. Confiantes, a vós nos consagramos, Sagrada Família de Nazaré. Tornai também as nossas famílias lugares de comunhão e cenáculos de oração. Autênticas escolhas do Evangelho e pequenas igrejas domésticas. Sagrada Família de Nazaré, que nunca mais haja nas famílias episódios de violência, de fechamento e divisão; e quem tiver sido ferido ou escandalizado seja rapidamente consolado e curado. Sagrada Família de Nazaré, fazei que todos nos tornemos conscientes do caráter sagrado e inviolável da família, da sua beleza no projeto de Deus. Jesus, Maria e José, ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém!

 

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